Escreva inspirado em alguma música

Acho que quando a Miley Cyrus escreveu essa música, ela tava num momento "estar" borderline dela. 
No capítulo 7 do livro "Mentes que amam demais", a Ana Beatriz Barbosa escreveu sobre Ser, estar ou parecer borderline, e isso me fez entender muita coisa sobre como as pessoas veem o borderline, até o ponto de se expressarem duvidosamente afirmando "então acho que sou borderline". Não é tão fácil saber como parece, mas como a própria autora diz no livro, o espectro varia e pode estar em várias pessoas que não tem o transtorno. E eu vejo isso na música Angels like you...
Incontáveis vezes que ouvi essa música e chorei, chorei copiosamente e ao mesmo tempo ela me acalmou. Nela eu vejo muito do que eu já senti e do que eu sinto. A sensação de que eu não mereço alguém, porque em algum momento eu vou machucar essa pessoa. Parece que um filme se passa na frente dos meus olhos: os momentos felizes, as declarações de amor, os beijos apaixonados, os sussurros ao pé do ouvido, as promessas, as risadas altas e espontâneas, o coração quentinho e batendo forte, fosse pela emoção de estar junto ou pela ansiedade do encontro que viria a acontecer. Parece tudo seguir muito bem, até eu acabar estragando tudo, com uma enchente de sentimentos que são despejados dentro de um reservatório que tem o tamanho menor que o box do banheiro da minha casa - em resumo, minúsculo - que por fim, me põem em dúvida de tudo, e em sofrimento.
A impressão que eu tenho, em algum momento, é que a pessoa é errada pra mim. Mas errada não no sentido de me fazer mal, mas por estar comigo kkk A sensação que eu tenho é que existe uma dualidade dentro de mim: a parte que está consciente que eu sou boa o bastante pra receber todo o carinho e amor que eu posso receber na vida, e a parte que tenta me convencer que eu não mereço nada disso, que a minha vida é para cumprir obrigações e que se eu recebo algum reconhecimento para além dos meus deveres, eu devo recusar. É bem o que a música diz, "quanto mais você dá, menos eu preciso"; parece muito meus pensamentos quando eu ouço que alguém gosta de mim, ou quando alguém me ama, ou que acha que eu sou bom exemplo pra alguém/alguma coisa.
Sinceramente, já cheguei a pensar que eu tinha outro transtorno além do border, mas nem o psicólogo e o psiquiatra conseguiram identificar; os dois diagnósticos que recebi, de psiquiatras que não se conheciam, foram os mesmos: borderline. E eu odeio ter que justificar meus atos com algo que não escolhi ter, pra pessoas que em momento algum vão ter empatia por mim ou sequer terão o cuidado de procurar saber do que eu estou falando. E mais uma vez, como a letra da Miley diz, a pessoa "vai desejar que a gente nunca tivesse se conhecido no dia que eu partir", porque eu vou achar errado permanecer com alguém que não me entende, ou que eu acho que merece mais. Alguém que não seja uma ferida aberta a maior parte do tempo ou da vida, como eu sou. 
Nem sei o porquê, mas eu tô chorando agora, lembrando das tantas vezes que eu falei pra algum cara que eu não era a pessoa que ele precisava, porque lidar comigo é complexo, é cansativo, que em um momento eu iria enchê-lo de amor e no mesmo dia talvez eu viesse a achar que não era amada, mesmo tendo recebido declarações de amor 1h antes disso. O meu autoquestionamento mais fraco é "será que isso um dia pode mudar?".
Eu sigo um psiquiatra no instagram que fala só sobre borderline, Fábio Schmidt o nome dele, e sempre que tem uma caixinha de perguntas eu mando alguma. Na semana do meu aniversário eu ganhei uma resposta dele de presente :) De tantos questionamentos, perguntei sobre palavras de afirmação, porque sempre fui muito ligada à isso. Ele disse que o border sente necessidade de palavras de afirmação porque validação verbal funciona como regulador para quem tem sistema de apego sensível. Ou seja, o cérebro interpreta palavras de apoio/feedback como sinal de segurança para estabilizar emoções. Quando eu vi isso, lembrei de todas as vezes que fui dita como "fresca" por alguém que me relacionei. Sinceramente, não tem alguém que escolhe ser assim, por mim eu só seria uma pessoa normal, anônima, que passa despercebidamente por dezenas de pessoas dentro de um ônibus apertado, mas tem a mente sã e saudável, sem uma confusão que aparece do nada dentro do peito ou da cabeça.
No meu eu estável, eu sei que não preciso de palavras de afirmação o tempo todo, mas as vezes foge de mim isso tudo - a dor, a tristeza, a necessidade de ouvir que tá tudo bem, ou que eu não tô sozinha. A sensação que eu tenho é que ser assim vai cansar alguém em algum momento e eu acabo preferindo que seja eu a pessoa que se cansa constantemente, e não algum possível companheiro. E eu me vejo no dever de falar o que a música diz: "amor, anjos como você não podem voar para o inferno comigo", porque em alguns momentos, sinto que estou lá: dói, dói muito, dói sem motivo; a vontade é de deitar e nunca mais levantar, acordar ou ter motivos pra viver. Se esvair, desaparecer no tudo ou no nada.
Tudo parece seguir um roteiro que eu não escrevi, mas que muitas vezes já aconteceu - e se repetiu: em algum momento eu vou ver que sou um impasse na vida da pessoa, que eu sempre estrago tudo (and it's not your fault I ruin everything) e acabo com o que poderia ser algo feliz, algo que seria um bom recomeço na vida "estável" que eu tanto sonhei em ter pra mim, uma família quem sabe... Mas sempre acabando com tudo. 
As vezes parece que isso nunca vai parar. Eu preciso parar com isso, de alguma forma.

Eu escrevi esse texto para outro blog meu. Então... num tem problema, é tudo a mesma dona mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sobre meu último término

Uma despedida para quem já se foi

Família